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quarta-feira, maio 30, 2007

O preço

(Foto de Bridgitte)


Estava disposta a pagar o preço, saíra de casa com aquela intenção, de encontrar o que deixara para trás há tanto tempo. Levava os roteiros debaixo do braço e esperanças simples, como um pequeno martírio por buscar aquele que há mais de dez anos a abandonara, sem ao menos dizer adeus. Trazia nós apertados em sua garganta e tantas perguntas por fazer. E debaixo do braço o roteiro de vidas inteiras, num intento teatral. E os passos conduziam-na para o confronto final, quase latente em seus olhos.
Queria chorar como o fez há muito tempo, mas as suas lágrimas secaram, queria apenas fitá-lo e encarar como se fosse mesmo um trabalho, como se os escritos fossem maiores que as suas dores de abandono, como se cada ato teatral desembocasse apenas no aplauso final de uma platéia desconhecida.
Entrou em uma loja de conveniência, bombons? Não doces demais para o momento, talvez um mimo branco, um cachimbo, uma caixa de charutos, será que ainda fumava?
Comprou um vinho, talvez fosse um presente bom, para alguém tão requintado, ou talvez fosse demais para alguém tão simples, não o conhecia mais. Resolveu então deixá-lo guardado para outra ocasião especial.
No roteiro as palavras ditam sobrecarregadas a cobiça. Demonstram a insatisfação com uma revolta, enganam-se em meio de orgias verborrágicas, quase plásticas e inconstantes.
As palavras deleitam-se de seus olhares míopes, que não desejam a visão e vêem os dias esconderem-se no caos e nas falésias ocupadas, como as mesas de um café de esquina, que não disfarçam o vazio de tentações.
Na vida real uma porta se abre, depois de tanto tempo, ela o vê ali, de pé e tão receptivo, sorridente e lascivo. As mãos não dissimulam, querem os pecados vãos, choram as faltas. Querem queimar no corpo alheio, entre o tesão vigoroso e o movimento vagaroso.
A fome das mãos trazem a revolução das carnes, das peles, dos olhos revirados em rotação obtusa, e confusa. Estavam secos de si, sedentos um pelo outro e vertiam-se em fluidos corpóreos, palavras sem nexo ou léxico. Apenas o gozo, silencioso e gentil.
Tentaram no fim um sorriso prazeroso, se esconderam entre braços e pernas e se encaravam pelo canto dos olhos, extasiados escondiam um riso, quase em um choro contido das perguntas não feitas e respostas não encontradas.
Num jogo de fuga e esconderijos secretos, eles estavam entregues, sabiam mais de si do que do outro e talvez fosse só isso que os interessasse, mas continuaram se observando até que arrancam-se os olhos, num frenesi dialético.
Não olhariam mais para trás.

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3 comentários:

Alexandre disse...

Sou suspeito pra falar, e o primeiro a comentar, mas a narrativa é envolvente como você sempre faz. Muito belo.
Beijos!

Edson Marques disse...

Larissa,


Na prosa você também encanta!


Abraços, flores, estrelas..

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medusa que costura insanidades disse...

Ótimo texto Larissa,hipnotizante e diferente...beijos